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O manuscrito aborda uma temática relevante ao investigar as relações entre deficiência, gênero, visibilidade digital e normalização. Destacamos o mérito de considerar as narrativas de mulheres com deficiência como fontes históricas e de problematizar a associação entre visibilidade e inclusão. A categoria “corpo impossível” constitui uma proposição instigante, com potencial para contribuir para o debate. Nossa leitura suscitou, entretanto, algumas questões que apresentamos como possibilidades de fortalecimento do trabalho.
Inicialmente, consideramos importante esclarecer a constituição do corpus. A metodologia anuncia 26 perfis e blogs, enquanto o Quadro 1 apresenta 30 entradas, incluindo casos cuja relação com os critérios de deficiência física, motora ou amputação não está clara. Seria interessante explicitar como os perfis foram localizados, quais procedimentos orientaram sua seleção e como se chegou à delimitação final. O critério de circulação pública relevante também merece esclarecimento, pois seleciona previamente sujeitos que já alcançaram visibilidade, dimensão posteriormente examinada nos resultados.
Relacionada a isso, identificamos a necessidade de maior transparência sobre as unidades documentais analisadas. Quantas postagens, imagens, stories e comentários foram examinados? Como foram selecionados e registrados? Embora não seja necessário reproduzir extensivamente as fontes, informações como datas, descrições, excertos ou um quadro suplementar permitiriam acompanhar melhor a relação entre evidências e interpretações. Essa questão é especialmente importante porque os quatro regimes discursivos são desenvolvidos principalmente a partir de oito perfis. Seriam eles exemplos de regularidades encontradas no corpus integral ou eles constituiriam um “subcorpus” analítico? A explicitação dessa relação ajudaria a dimensionar o alcance das conclusões.
Também sugerimos distinguir mais claramente a circulação observável das interpretações sobre a mediação algorítmica. Curtidas, comentários e padrões de engajamento podem ser identificados empiricamente, mas expressões como “alcance algorítmico” e “normalização algorítmica” pressupõem inferências que precisam ser qualificadas à luz dos procedimentos empregados.
Quanto à dimensão histórica, o recorte de 2010 a 2025 oferece possibilidades importantes, mas poderia ser mais efetivamente incorporado à análise. Blogs e diferentes redes sociais apresentam arquiteturas, formas de circulação e temporalidades próprias. Como essas transformações interferem nos regimes identificados? Além disso, a comparação entre os séculos XIX, XX e XXI merece maior fundamentação e uma distinção mais precisa entre contextualização historiográfica e resultados efetivamente derivados do corpus contemporâneo.
A organização dos resultados em quatro regimes discursivos favorece a exposição, mas gostaríamos de compreender melhor seu processo de construção. Quais regularidades levaram à definição dessas categorias? Como foram identificadas as posições de sujeito e as superfícies de emergência anunciadas na metodologia? Existem casos divergentes que tensionam os padrões apresentados? Essas questões podem contribuir para tornar mais explícito o percurso entre fontes, procedimentos e resultados.
Nesse contexto, consideramos particularmente promissor aprofundar a categoria “corpo impossível”. As exigências de autonomia, produtividade, desejabilidade e adequação estética aparecem simultaneamente nas mesmas trajetórias ou resultam da articulação de situações observadas em sujeitos diferentes? O que essa categoria permite compreender para além de conceitos como capacitismo, supercrip e normalização? A explicitação dessas relações fortaleceria sua contribuição conceitual.
O referencial teórico é amplo, mas sua articulação com a análise poderia ser aprimorada. A associação de autores específicos a diferentes perfis no Quadro 1, sem justificativa metodológica clara, dificulta identificar os conceitos que efetivamente orientam a investigação. Sugerimos hierarquizar o referencial e ampliar o diálogo com pesquisas empíricas sobre deficiência, gênero e plataformas digitais, situando melhor a originalidade das contribuições propostas. Também seria interessante explorar como as diferenças entre as mulheres analisadas interferem nos regimes identificados, evitando que a diversidade do corpus seja diluída em generalizações.
Em síntese, reconhecemos a relevância do objeto, a riqueza potencial das fontes e a contribuição que a categoria “corpo impossível” pode oferecer. Nossas observações procuram contribuir para aproximar as interpretações das evidências apresentadas, tornando mais transparente o percurso que articula constituição do corpus, seleção documental, procedimentos analíticos e formulação das categorias. Acreditamos que esses aprimoramentos poderão fortalecer a consistência histórica e conceitual do manuscrito, valorizando ainda mais sua contribuição para os estudos sobre deficiência, gênero e visibilidade digital.
Os autores declaram que não possuem conflitos de interesse.
The authors declare that they did not use generative AI to come up with new ideas for their review.
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