Da ilha de Marajó à Marquês de Sapucaí: tradução ontológica e eficácia cosmopolítica dos caruanas no enredo da Beija-Flor de Nilópolis (1998)
- Publicado
- Servidor
- SciELO Preprints
- DOI
- 10.1590/scielopreprints.17532
O presente artigo examina a eficácia cosmopolítica e a eficácia simbólica da pajelança cabocla marajoara na Marquês de Sapucaí, a partir do desfile "Pará: o mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu", com o qual o G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis conquistou o campeonato do carnaval carioca de 1998. Por meio de pesquisa etnográfica e entrevistas com a filha da pajé e dois carnavalescos da comissão da época, a investigação detalha a inserção de uma ontologia nativa amazônica na reestruturação institucional de uma agremiação acometida por um jejum de quatorze anos sem títulos. Argumenta-se que o barracão e a avenida constituíram uma complexa zona de mediação transcultural e um terreiro expandido, no qual a agência xamânica de Zeneida Lima conduziu os termos de uma precisa tradução cosmológica e estética, regida por uma ética da dádiva avessa à mercantilização, paradoxo que se intensifica no epicentro do espetáculo mais capitalizado da cultura popular brasileira. A validação espiritual dos croquis e a ritualização na passarela atestam a articulação de um transe coletivo e da eficácia simbólica estruturante, com desdobramentos capazes de reordenar o capital simbólico da escola de samba e de reverberar até o retorno da agremiação ao Marajó, previsto para o carnaval de 2027.