Os relatórios das Comissões Nacionais da Verdade (CNV) constituem documentos-monumentos que reorganizam memórias e narrativas sobre as ditaduras, mas também revelam descontinuidades e limites. Embora contribuam para reenquadrar vítimas, fortalecer políticas de justiça, memória e reparação e consolidar iniciativas anteriores, não conseguem efetivar plenamente uma ideia universal de verdade. A análise comparada dos relatórios brasileiro (2014) e chileno (1996) evidencia como determinados grupos permanecem silenciados ou sub-representados. No Brasil, destacam-se os apagamentos relacionados à população negra e aos povos indígenas; no Chile, aos pobladores e ao povo Mapuche. Assim, a transformação de memórias subterrâneas em memórias coletivas e narrativas oficiais ocorre de forma seletiva, reproduzindo hierarquias no reconhecimento do sofrimento. As CNV também enfrentam tensões entre justiça, reparação, reconciliação e silenciamentos históricos, refletindo os processos de redemocratização pactuada e a permanência de estruturas sociais e políticas que limitam o reconhecimento da violência.