ENTRE O PERTENCIMENTO E O ESTRANHAMENTO: HABITANDO AS FRONTEIRAS ENTRE OS MUNDOS CIVIL E MILITAR
- Publié
- Serveur de preprints
- SciELO Preprints
- DOI
- 10.1590/scielopreprints.17863
Este trabalho propõe uma reflexão sociológica sobre as possibilidades de conhecimento geradas pela permanência prolongada em uma posição situada entre os universos civil e militar, fruto da atuação de três décadas como docente civil na Academia da Força Aérea (AFA). Adotando uma perspectiva de auto-socioanálise inspirada em Pierre Bourdieu e na sociologia da reflexividade no meio militar de Helena Carreiras, problematiza-se a posição de fronteira de quem analisa o próprio ambiente profissional. O material empírico desta trajetória reflexiva provém de pesquisas longitudinais anteriores desenvolvidas na pesquisa de doutorado realizada pela autora, nos textos dela derivados e também de observações acumuladas após a publicação desses trabalhos. A familiaridade com as rotinas militares é desnaturalizada a partir de Gilberto Velho e Celso Castro, enquanto o estranhamento irredutível — decorrente da condição de ser mulher, civil e docente da área de humanas na caserna — é analisado por meio de Erving Goffman, Howard Becker e Jeanne Favret-Saada. Ao problematizar a própria posição de quem pesquisa e perguntar o que uma posição simultaneamente próxima e não plenamente pertencente permite enxergar, conclui-se que o pertencimento parcial e o estranhamento simultâneo não constituem obstáculos metodológicos, ou privilégios, mas configuram as próprias condições de possibilidades específicas para a compreensão sociológica das fronteiras simbólicas que estruturam as relações entre Estado, instituições militares e sociedade.