A omissão como discurso: feminicídio, negacionismo e a (ir)responsabilidade do Estado nas notícias oficiais do Rio Grande do Sul
- Publié
- Serveur de preprints
- SciELO Preprints
- DOI
- 10.1590/scielopreprints.17803
Este artigo examina como o discurso oficial do Estado do Rio Grande do Sul constrói o feminicídio nas notícias de sua agência estatal entre janeiro de 2025 e junho de 2026. Parte-se de Marcela Lagarde y de los Ríos, para quem o feminicídio é crime de Estado, e de Rita Segato, que lê a violência de gênero como estratégia de reprodução do sistema, em articulação com as modalidades de negação de Stanley Cohen. O corpus reúne 35 peças em que o termo comparece no título, na linha fina ou no corpo do texto, submetidas à Análise de Discurso Crítica no modelo de Norman Fairclough. A análise identifica uma oração fixa, que atribui a dificuldade de enfrentamento ao fato de o crime ocorrer predominantemente dentro dos lares, reiterada em cinco balanços ao longo de dezesseis meses, sob duas gestões da pasta da Segurança Pública e a despeito de movimentos contrários dos indicadores. Identifica, ainda, o apagamento do agente da violência letal em 26 das 35 peças, a nomeação da causa estrutural em apenas quatro delas e a apresentação de uma mesma cifra absoluta ora como alta, ora como queda. Conclui-se que o discurso oficial reconhece o feminicídio na exata medida em que esse reconhecimento o desobriga, ao invés de negá-lo, deslocando para o âmbito doméstico e para a iniciativa da vítima aquilo que ao Estado é constitucionalmente devido.