Os Ladrões do Impossível: Austeridade, Liberdade e Fascismo no Interregno
- Publicada
- Servidor
- SciELO Preprints
- DOI
- 10.1590/scielopreprints.18452
Este ensaio investiga as condições políticas e sociais que permitem à extrema-direita contemporânea apresentar-se como força de ruptura e reivindicar a liberdade, apesar de preservar hierarquias econômicas e ampliar dispositivos autoritários. A partir de uma abordagem teórico-interpretativa, articula contribuições da economia política crítica, da teoria da hegemonia e do pensamento social latino-americano para examinar o prolongamento do interregno neoliberal após a crise de 2008. Argumenta que a austeridade converte disputas distributivas em restrições aparentemente técnicas e que sua incorporação por governos progressistas contribui para uma pedagogia da impotência democrática. Nesse contexto, o melhorismo, entendido como produção de avanços sociais sem transformações proporcionais nas relações estruturais de poder, revela sua insuficiência para reconstruir um horizonte emancipatório. Sustenta-se que a extrema-direita ocupa parte desse vazio ao articular ressentimentos, alianças com frações dominantes e promessas seletivas de autonomia, apropriando-se simbolicamente da rebelião e da liberdade. A análise incorpora a experiência histórica das sociedades periféricas, nas quais colonialidade, escravidão, violência e cidadania desigual antecedem o neoliberalismo. Conclui que enfrentar processos contemporâneos de fascistização requer democratizar o poder econômico, reconstruir vínculos coletivos e recolocar a liberdade como capacidade efetiva de decidir sobre as condições da existência.