O presente artigo analisa representações digitais territorializadas do conflito entre pecuaristas e onças-pintadas (Panthera onca) na região de São Félix do Xingu, sudeste do Pará, por meio de abordagem netnográfica associada à auditoria qualitativa de registros audiovisuais relacionados a episódios de predação atribuída a grandes felinos. A pesquisa concentrou-se na plataforma YouTube, único ambiente digital em que foram localizados registros sistemáticos e auditáveis relacionados ao fenômeno investigado. Inicialmente foram identificados 2.613 vídeos, dos quais 1.069 foram selecionados mediante buscas pelas palavras “onça” e “onca”. Após auditoria individual dos conteúdos, exclusão de vídeos sem relação direta com episódios de predação bovina e eliminação de duas ocorrências localizadas fora da área geográfica delimitada, o corpus final foi composto por 47 registros audiovisuais auditados. O estudo não pretende realizar confirmação biológica definitiva dos eventos predatórios, mas analisar a construção territorializada de narrativas digitais relacionadas ao conflito humano-fauna na região estudada. Os resultados evidenciaram predominância de registros envolvendo animais juvenis, recorrência espacial em propriedades rurais específicas e associação frequente entre relatos audiovisuais de ataques e áreas de elevada conectividade florestal amazônica. Paralelamente, os conteúdos analisados revelaram narrativas recorrentes relacionadas à insegurança rural, vulnerabilidade econômica, medo e percepção de abandono institucional. O estudo demonstra que plataformas digitais podem atuar simultaneamente como espaços de documentação empírica, circulação emocional do risco e amplificação simbólica de conflitos socioambientais. Conclui-se que a compreensão contemporânea dos conflitos entre grandes predadores e pecuária amazônica demanda abordagens interdisciplinares capazes de integrar ecologia, territorialidade, comunicação digital, percepção de risco e conflitos socioambientais.