Este ensaio analisa a inteligência artificial (IA) não apenas como inovação técnica, mas como uma nova etapa da questão do desenvolvimento nas periferias globais. Utilizando uma chave de leitura a partir da antropofagia combinada com uma epistemologia das encruzilhadas, argumenta-se que o acesso à tecnologia não garante soberania, podendo consolidar uma "colônia algorítmica" onde países como o Brasil fornecem recursos brutos (dados, energia e trabalho precário) e importam sistemas de decisão e comando. A disputa pela IA é apresentada como uma luta pela linguagem e pela capacidade de nomear o mundo, desafiando padrões semânticos estrangeiros que tratam a diversidade local como ruído. O texto denuncia a materialidade da tecnologia, que repousa sobre a extração mineral e a exploração de trabalho invisível. Critica-se a tendência das elites locais em lucrar com a intermediação da dependência, utilizando a IA para intensificar a disciplina social e a gestão da escassez. Como alternativa, propõe-se uma estratégia antropofágica: devorar e desarrumar a técnica alheia para adaptá-la às prioridades territoriais. Para isso, é fundamental mobilizar a soberania monetária, o poder de compra estatal e missões públicas orientadas por necessidades sociais. Por fim, defende-se a escala latino-americana como essencial para construir densidade tecnológica e autonomia diante de monopólios globais.