Após desastres, é comum a circulação de narrativas sobre fantasmas e assombrações nas áreas devastadas, fenômeno pesquisado internacionalmente. Não são metáforas: pessoas relatam aparições naquelas áreas e evitam frequentá-las, conforme observado na Tailândia, no Japão, no Vietnã, na China, na Argentina e em diversos países. Este trabalho apresenta breves notas da etnografia “Águas passadas”, tese defendida no IMS/UERJ, que analisou essas experiências em Petrópolis, município historicamente atravessado por desastres. Perspectivas socioantropológicas e decoloniais, em diálogo com a psicanálise, nortearam e desnortearam o trabalho de campo, configurando essa pesquisa como um convite à hospitalidade aos fantasmas, por uma preocupação por justiça, como defendeu Derrida. A assombração e o fantasma são compreendidos como conceitos operativos, sustentados pela socióloga Avery Gordon, que constituem, respectivamente, tanto uma experiência quanto uma figura social dotada de agência. Criticamente distante de abordagens que tendem à condescendência e à medicalização desses fenômenos sociais, as “zonas assombradas” configuram um limítrofe não-lugar feito de transições, passagens e mortes, onde os vínculos sociais se estendem para além dos vivos, atravessado por medos, interseccionalidades, desenraizamentos e disputas de pertencimento. Nessas zonas, essas narrativas constituem um trabalho coletivo de memória e elaboração, e um recurso estratégico contra o esquecimento.